sexta-feira, 6 de abril de 2012

Queridos Inimigos!

Gilles Villeneuve versus Didier Pironi

Dois pilotos educados, refinados e bastante ambiciosos que destruíram uma amizade pelo temor que um causava ao outro. Temor puro e mútuo. Didier Pironi foi o verdadeiro causador da inimizade por sentir Gilles Villeneuve como uma ameaça à sua carreira vitoriosa.
Os dois competiram juntos na Ferrari por uma temporada completa em 1981 e mais algumas corridas de 1982. No primeiro ano, como o carro era muito mau, não houve rivalidade entre ambos. No entanto, Villeneuve fez um ano impecável, venceu duas corridas e marcou 25 pontos contra apenas 7 de Pironi. Nos bastidores, Enzo Ferrari já havia prometido: se o carro de 82 fosse bom, a equipa faria de tudo para fazer o canadiano campeão. É óbvio que o “maquiavélico” francês, que não chegava perto do companheiro nem nos contratos de patrocínio, não estava feliz com a situação.
O primeiro sinal do distanciamento foi o fato de Didier não ter convidado Gilles para o seu casamento, no início de 1982. A temporada começou com Villeneuve andando bem mais rápido, errando bem mais e marcando menos pontos do que Pironi. O problema surgiu em Imola, quando a Ferrari estava a ponto de obter uma dobradinha Villeneuve-Pironi. Como a corrida já estava sob controle total, a equipa pediu aos seus pilotos que  poupassem os pneus diminuindo o ritmo. Villeneuve obedeceu, mas Pironi não fez o mesmo e ultrapassou-o na “Tosa”, assumindo a liderança. O canadiano não achou graça nenhuma e atacou o companheiro, ultrapassando-o e retomando a liderança. Mas Pironi estava diabólico e ultrapassou Villeneuve novamente na penúltima volta. E venceu a corrida.
No pódio, o ambiente estava pesado. Pironi nem olhava para a cara do enfurecido Villeneuve, que declarou à imprensa que nunca mais falaria com ele. O fim das relações entre os dois foi o assunto mais comentado da Fórmula 1 pelos quinze dias seguintes. Em Zolder, Pironi estava à frente de Villeneuve nos treinos, e o canadiano estava bastante desesperado com a situação. Faltando poucos minutos para o fim dos treinos, foi para a pista, tentou ignorar o retardatário Jochen Mass, sofreu um acidente e morreu. Meses depois, Pironi também sofreu um gravíssimo acidente em Hockenheim, mas sobreviveu.
Em 1987, pouco antes de morrer, Didier Pironi viria a dar o nome de Gilles a um de seus filhos. Um misto de demagogia e consciência pesada.

Nigel Mansell versus Nélson Piquet

“Mansell é o maior idiota que eu já vi”. Essa frase foi dita pelo ex-companheiro de equipe do inglês, Nelson Piquet.
Nigel Mansell e Nelson Piquet eram duas das figuras mais emblemáticas da Fórmula 1 dos anos 80. Cada um deles tinha a sua personalidade, que era diametralmente oposta à do outro. Piquet era um iconoclasta, um transgressor do status quo da categoria. Era criativo, vibrante, aventureiro, gostava de levar uma boa vida com as suas mulheres e os  seus iates. Destacava-se pelo sarcasmo frequentemente confundido com arrogância ou má-educação. Já Mansell, formado em engenharia, fazia o perfillow profile. Tinha a sua mulher, considerada muito feia por Piquet, os seus filhos e a sua vida pacata típica de um inglês do interior, o que talvez explique sua falta de malícia perante o mundo da Fórmula 1.
Mansell e Piquet foram companheiros na equipa de Sir Frank Williams por apenas dois anos, 1986 e 1987. Tempo suficiente para que a equipa se dividisse entre os defensores de Piquet e os de Mansell. Frank Williams gostava muito de Nigel, mas ficava deslumbrado com a perspicácia do brasileiro. Já Patrick Head era 100% Mansell, e como a sua influência era tão forte quanto a de Frank, a equipa acabava privilegiando o piloto inglês. Dois episódios ilustram bem esse proteccionismo: no GP da Alemanha de 1986, Nigel Mansell tinha problemas com os pneus e deveria parar nas boxes para trocá-los. No entanto, Nelson Piquet prega uma surpresa em todos e entra nas boxes, antecipando a sua troca de pneus e obrigando Mansell a ficar com aqueles pneus por mais uma longa volta. Com isso, Nelson ganhou o tempo necessário para vencer a corrida de forma antológica. Após a corrida, Piquet ainda deu uma sapatada nas costas do enfurecido Patrick Head.
No ano seguinte, a Williams desenvolveu um sistema de suspensão activa que deu muitas alegrias a Piquet e muitas dores de cabeça a Mansell. O brasileiro venceu três corridas até meados do campeonato enquanto que Mansell sofria para acertar o seu carro. A briga entre os dois chegou a um ponto em que Nelson escondia os acertos do seu carro, o que dificultava ainda mais a vida do oponente. Como forma de ajudar Mansell, Patrick Head decidiu que os Williams não teriam mais suspensão activa para as três últimas etapas de 1987. Mesmo assim, Piquet sagrou-se campeão em 1987. Contra a vontade de boa parte da equipa.

Jusn Pablo Montoya versus Ralf Schumacher

É uma dupla que tem muito em comum com Mansell e Piquet. Ambos competiram pela Williams. Ambos dividiram as opiniões da equipa. Ambos apresentavam personalidades bastante distintas. Montoya era o latino enfurecido, capaz de escandalizar uma Fórmula 1 inteira pelo lado bom e pelo lado mau. Ralf era o germânico que fazia cara de mal-humorado e que parecia demonstrar uma constante inveja pelo sucesso do irmão Michael. Admirador dos tipos efusivos, Frank Williams apostava no colombiano, cria sua desde 1997. Patrick Head ficava em cima do muro. Quem dava apoio a Ralf era a BMW, fornecedora de motores da equipa.
A rivalidade entre os dois começou já na pré-temporada de 2001, com alfinetadas trocadas através de declarações à imprensa e atitudes pueris como o isolamento dos mecânicos. Durante o ano de 2001, enquanto Montoya ainda aprendia a terminar duas corridas consecutivas, Ralf fazia o seu melhor ano na Fórmula 1.
Em 2002, ambos estavam em condições parecidas – levando “porrada” da Ferrari. Ralf e Montoya ficavam-se pelos terceiro e quarto o tempo, demonstrando até mesmo uma certa apatia. No entanto, em Indianápolis, os dois protagonizaram um belíssimo espectáculo ao baterem um no outro na primeira curva da segunda volta da corrida. Enquanto Montoya saía pela relva, Ralf ficava sem o aileron traseiro. Nas boxes, Patrick Head perdia a compostura com os dois “estrupícios”.
Depois disso, Ralf decaiu e Montoya sossegou. Nunca foram amigos, embora Montoya tenha até admitido que “Ralf é um gajo porreiro”, o que é uma visível atitude política. No fim de contas, ambos deixaram a equipa no final de 2004. Só que, ao contrário de Mansell e Piquet, nenhum deles saiu de lá campeão.
 
Ayrton Senna versus Alain Prost

A rivalidade mais conhecida da história da Fórmula 1. Ela envolveu dois monstros sagrados da Fórmula 1 num período no qual os pilotos começavam a ter mais fama do que a própria categoria. E acabou culminando num acidente que decidiu um título.
Ayrton Senna e Alain Prost tinham muito em comum e muitas diferenças. Ambos eram bastante compenetrados e perfeccionistas. Ambos eram políticos com quem lhes interessava. Ambos eram maquiavelicamente pragmáticos. Ayrton Senna gostava de chuva e de correr em pistas de rua. Alain Prost odiava chuva e pistas de rua, mas acertava os carros de um jeito que o brasileiro não conseguia. Quando Senna chegou na McLaren, Prost já tinha feito quatro temporadas com a equipa de Woking. Os dois correram juntos por apenas dois anos, 1988 e 1989. No começo, o relacionamento era notavelmente bom.
No Estoril/1988, no entanto, a coisa começou a descambar. Na segunda volta da segunda largada, Prost tentou ultrapassar Senna na recta dos boxes. O brasileiro fechou violentamente o francês, que quase bateu no muro do lado direito. Mesmo assim, Prost insistiu e conseguiu a ultrapassagem. Findada a corrida, Prost criticou Senna pela atitude e chamou o brasileiro para um café na motorhome da McLaren para discutir o que aconteceu. Conversaram e tudo foi resolvido.
Imola/1989. Havia um acordo prévio entre os pilotos da McLaren que, após a primeira curva, um não deveria ultrapassar o outro na primeira volta. Como a corrida teve duas largadas, Senna considerou que o acordo já não valia mais desde a primeira largada. E na primeira volta da segunda largada, o brasileiro ultrapassou Prost na Tosa, disparou e venceu a corrida. O relacionamento entre os dois acabou aí.
Prost e Senna deixaram de se falar e a maioria da McLaren colocou-se ao lado do brasileiro. Sem “clima” para permanecer na equipe, o francês anunciou no fim de semana da corrida que estava de malas aviadas. O ambiente permaneceu negativo até ao GP do Japão. Os dois bateram na chicane e Prost ganhou o título.
Depois deste acidente, ainda se atacaram noutras ocasiões, seja por acidentes na pista ou por declarações ferozes. A reconciliação aconteceu apenas no fim de 1993. Pelo que um fez ao outro, especialmente nas corridas japonesas de 1989 e 1990, até que veio rápida e facilmente.

Carlos Reutemann versus Alan Jones

Este é o conflito menos conhecido, mas talvez o mais agressivo da história da equipa Williams.
Assim como as duplas anteriores, os dois pilotos eram completamente diferentes entre si. Jones encarnava o arquétipo do australiano sisudo e agressivo, enquanto que o judeu Reutemann desfilava a elegância e prepotência pelo paddock. Os dois foram companheiros de equipa em 1980 e 1981. No primeiro ano, tudo correu de modo tranquilo, Jones foi campeão e Reutemann ficou em terceiro. Como o australiano também tinha mais tempo de casa, nada mais natural do que ele ser considerado o primeiro piloto da equipa em 1981.
No entanto, a hierarquia desmorenou-se logo na segunda etapa do campeonato, o Grande Prémio do Brasil. Carlos Reutemann liderou a corrida desde a primeira volta, com Alan Jones sempre atrás. A Williams mandou Reutemann ceder passagem a Jones, mas diante de uma considerável falange de apoio argentina no circuito de Jacarepaguá, ele recusou, manteve-se à frente e venceu a corrida. Enquanto Reutemann era celebrado sob gritos de “Lole! Lole!”, Jones recusava-se a subir ao pódio para receber o troféu de segundo lugar.
A partir daí, Jones passou a nutrir um enorme sentimento de ódio por Reutemann, que respondia com desprezo. A Williams tomou o partido do australiano, e a confusão estava instalada. O clima na equipa estava muito mau e nem os bons resultados obtidos pelo argentino recuperaram os ânimos. No fim das contas, Reutemann chegou à última corrida, em Caesar’s Palace, com 49 pontos e a liderança do campeonato. Nelson Piquet, o vice-líder, estava apenas um ponto atrás. Alan Jones, com 37, estava completamente fora da disputa. Antes da corrida, disse a todos que não ajudaria o seu companheiro por acreditar que não havia o que fazer, uma vez que segurar os outros pilotos seria anti-desportivo.
O caso é que a Williams não moveu uma única palha para ajudar o argentino, que apesar de ter obtido a pole-position, teve um carro completamente problemático durante a corrida, perdeu várias posições e terminou apenas em oitavo. E quem venceu? Alan Jones, que dispôs de um carro impecável. Com os resultados, Nelson Piquet venceu o título com apenas um ponto de vantagem sobre Reutemann.
Mesmo depois da saída de ambos da Williams, o ódio continuou. Após Jones ter anunciado a sua retirada, Reutemann aproximou-se dele pedindo para “enterrar o machado de guerra”, ao que o australiano educadamente responde algo como “só se for no seu rabo!”. No fim de 1981, alguém perguntou a Alan Jones se ele correria em 1982. Cáustico, responde que só faria o GP da Argentina para ver a reacção da torcida local…

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